Meio século sem o poeta de Pasárgada

Em 09/10/2018 - 19:10
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Ana Lúcia Lins

 

Rua da União

Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância

Rua do Sol

(Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)

Atrás de casa ficava a rua da Saudade…

                                                                         …onde se ia fumar escondido

Do lado de lá era o cais da rua da Aurora…

                                                                         …onde se ia pescar escondido”

 

Os versos de Evocação do Recife, de Manuel Bandeira, lembram uma cidade que deixou marcas profundas no coração do poeta. Quando criança, ele viveu oito anos na Capital. As recordações desse período foram registradas em vários trechos da obra dele, considerada um clássico da literatura brasileira.

No próximo dia 13 de outubro, faz 50 anos que Bandeira morreu, aos 82 anos de idade, vítima de hemorragia gástrica. Deve ter ido “embora pra Pasárgada”, parodiando outro poema famoso do pernambucano, que remete a um mundo imaginário onde ele sonhava viver para sempre.

Ouça esta reportagem:

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

(…)

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

– Lá sou amigo do rei –

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada”

 

Manuel Bandeira nasceu no Recife, em 19 de abril de 1886. Viveu na capital pernambucana até os 4 anos, depois mudou-se para o Rio de Janeiro, voltando a morar na “Veneza brasileira” entre os 6 e os 10 anos de idade.

No sobrado nº 263 da Rua da União, no bairro da Boa Vista, ficava a casa do avô materno dele, Antônio José da Costa Ribeiro – que foi, inclusive, deputado-geral. Lá, o menino Manuel residiu e imortalizou personagens e versos. No casarão neoclássico, desde 1986 funciona o Espaço Pasárgada, que abriga produções literárias e atividades de artes. O local foi criado para celebrar o centenário de nascimento do poeta.

A gestora Marília Mendes destaca a importância da casa-museu (ver vídeo): “Manuel Bandeira dizia que esse tempo em que viveu aqui, na Rua da União, marcou a vida dele definitivamente e toda a sua obra. O prédio tem essa memória. Quem conhece os poemas e a obra dele se encanta ao saber que viveu aqui. Essa é a maior poesia que o espaço tem”, assinala.

Esse “Recife mítico” está muito presente no trabalho de Bandeira, alinhavado com saudosismo e melancolia, e foi curiosamente despertado pelo sociólogo Gilberto Freyre, em 1925, quando o poeta já tinha 39 anos. É o que relata o professor de Letras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Anco Márcio Vieira. “Freyre era primo de Bandeira e estava organizando para o Diario de Pernambuco um livro em comemoração ao centenário do jornal. Ele manda uma carta para Bandeira pedindo que escreva um poema sobre o Recife”, conta.

E prossegue: “Bandeira lê aquela carta e acha aquilo estranhíssimo. Manda outra carta para Mário de Andrade, que era seu amigo, dizendo: ‘Meu primo pediu para eu escrever um poema sobre o Recife, mas eu nunca escrevi poema por encomenda’. Uma semana depois, escreve outra carta para Mário dizendo: ‘Escrevi um poema que saiu de uma vez só, quase como um fluxo’. Era Evocação do Recife, que seria publicado no Livro do Nordeste. É a primeira vez que ele fala da infância e do Recife. A partir daí, vai escrever uma série de poemas sobre a cidade.”

 

Conselheiro

Manuel Bandeira é um dos grandes escritores do século 20. É considerado o precursor do Modernismo, movimento literário e artístico que rompeu com o tradicionalismo e instituiu o verso livre, sem a obrigatoriedade da contagem de sílabas (ver box).

Autor de quatro livros sobre Bandeira, escritor e doutorando em Literatura e Interculturalidade pela Universidade Estadual da Paraíba, André Cervinskis destaca a importância do poeta nesse contexto. “Ele era como se fosse o pai do Modernismo, a pessoa que aconselhava. Tinha muita amizade com os expoentes da época, como Rachel de Queiroz, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Guimarães Rosa. Exercia uma influência muito grande na elite cultural do Rio de Janeiro. Poetas jovens iam conversar com ele, que os ajudava, lia os poemas, dava sugestões”, comenta.

O professor Anco Márcio complementa a observação: “Mário de Andrade dizia que Bandeira era o ‘João Batista’: aquele que anunciava o Modernismo. Mas também tinha uma presença muito marcante em um outro movimento modernista dos anos 20, o regionalismo de Gilberto Freyre, que vai ter, de alguma maneira, certa influência sobre o poeta na construção de uma certa sensibilidade poética no sociólogo”.

Foto de livros do acervo do Espaço Pasárgada, com destaque para "Recife de Manuel Bandeira".

NOSTALGIA – Primeiro poema sobre o Recife atendeu a pedido do primo Gilberto Freyre. Cidade iria se tornar, depois, personagem recorrente na obra de Bandeira. Foto: Sabrina Nóbrega

 

Obra

Simples e coloquial, Manuel Bandeira via lirismo nas cenas cotidianas e criava poéticas profundas com a linguagem do dia a dia, explica Anco Márcio. “É aí que está o grande segredo: ele pegava palavras aparentemente usuais, muitas delas já bastante desgastadas, como saudade, amor, que perdiam a força semântica, e conseguia inseri-las dentro da poesia, de maneira que eram ressignificadas. É como se ele ‘reoxigenasse’ essas palavras.”

 

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.”

 

O habitante do mundo imaginário de Pasárgada escreveu prosa, crônicas, ensaios, traduções, críticas de arte e antologias. A obra tem também toques de ironia, erotismo e crítica social.  Marília Mendes ressalta este último: “Era um homem que estava à frente do seu tempo. Escreveu muitas crônicas falando sobre a cidade, criticando a urbanização desenfreada. Um poeta que tinha muita consciência do espaço em que vivia. Ele também usava a poesia como um instrumento de luta e de reivindicação”, afirma.

André Cervinskis complementa destacando um trecho da obra do cronista. “Tem uma crônica em que ele diz: ‘Eu queria o Recife da minha infância egoisticamente.  E o Recife hoje é uma cidade sem jardins. Não, eu não aceito o Recife como está. Agora está com arranha-céus, com trânsito, sem aquele ar provincial com o qual as pessoas iam à praça, sentar, conversar’”, assinala.

As mudanças de nomes de ruas  na cidade também eram condenadas pelo poeta, como lembra o professor Anco Márcio. “Uma outra crítica que ele fazia era a substituição de nomes de ruas muito poéticos e bonitos, pelo nome de algum político. Ele reclamava muito disso: que a rua tal agora era doutor fulano de tal. Perdia-se a referencialidade do local, do que evocava e, por outro lado, perdia-se também a paisagem arquitetônica que de alguma maneira reafirmava o que a rua queria dizer ”, arremata.

Foto da fachada do Espaço Pasárgada, um sobrado verde claro de janelas brancas na Rua da União. Em destaque, uma placa que informa a importância histórica da casa onde Manuel Bandeira viveu na infância. Ao fundo, o busto do poeta que fica na entrada do prédio.

MEMÓRIA – No sobrado 263 da Rua da União, no bairro da Boa Vista, ficava a casa do avô materno de Bandeira, Antônio José da Costa Ribeiro. O poeta residiu no casarão neoclássico durante a infância. Foto: Sabrina Nóbrega

 

Doença

O primeiro livro de Bandeira foi  A Cinza das Horas (1917) e o último, Estrela da Vida Inteira (1965). Professor e membro da Academia Brasileira de Letras, ele passou a vida sob a sombra da morte: ficou tuberculoso em 1904, o que atrapalhou os estudos e fez com que precisasse receber tratamento no Brasil e na Suíça.

 

Criou-me desde eu menino

Para arquiteto meu pai

Foi-se-me um dia a saúde…

Fiz-me arquiteto? Não pude!

Sou poeta menor, perdoai!”

 

Em homenagem à morte do escritor, a Escola Poeta Manuel Bandeira, na Ilha do Leite, vai promover apresentações de poemas e outros trabalhos de alunos do Ensino Médio na Feira de Conhecimentos, neste mês de outubro.

A presença de Bandeira na cidade será também lembrada com exposições, palestras e saraus no Espaço Pasárgada (confira a programação), nesta quarta (10) e quinta (11), e com uma trilha a pé organizada pela Prefeitura do Recife, no próximo dia 20, das 14h às 16h30, com saída da Praça do Arsenal, no Bairro do Recife.

 

Assim eu quereria meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação”

 

Modernismo

Em oposição à rigidez métrica de outras escolas literárias, o verso livre é uma das características do Modernismo na poesia brasileira. E Manuel Bandeira é considerado o mestre dessa modalidade. Boa parte de sua obra  buscou essa liberdade de expressão, como no poema Poética:

 

Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente

protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário

o cunho vernáculo de um vocábulo.

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador

(…)

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbedos

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”

 

O objetivo do Movimento Modernista, que tinha influência europeia, era romper com o tradicionalismo e promover uma estética livre, com ênfase na experimentação e na independência cultural do País. O auge foi a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. Bandeira não foi ao evento, mas encaminhou o poema Os Sapos, que foi lido por Ronald de Carvalho, no Teatro Municipal.

Segundo o professor Anco Márcio, Manuel Bandeira tinha 36 anos naquela época, e se sentiu deslocado para estar entre os jovens que participavam do movimento. “Ele começou a escrever em 1910, e quando vem o Movimento Modernista, já era um ‘senhor’ de 36 anos”, comenta.

No primeiro livro, A Cinza das Horas, ainda havia influências parnasianas (escola literária que buscava ver o mundo de forma objetiva) e simbolistas (estilo marcado pelo espiritualismo e subjetivismo). Mas em 1919, com a publicação de Carnaval, Bandeira passeia pelas letras modernistas. E a obra Libertinagem, de 1930, já tinha perfil explícito do Movimento Modernista.

“O Modernismo trouxe uma nova leitura da cultura brasileira, da identidade nacional. O movimento vem resgatar, ressignificar essa cultura brasileira”, arremata André Cervinskis.

 

*Fotos em destaque: Sabrina Nóbrega (home) e Arquivo Nacional (Notícias Especiais)