Desigualdade em campo: futebol feminino sofre com preconceito

Em 06/07/2018 - 12:07
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ESFORÇO – Apesar das dificuldades, a seleção feminina brasileira é heptacampeã da Copa América e já garantiu vaga nas Olímpiadas de 2020, no Japão, e na Copa do Mundo de 2019, na França. Foto da reportagem e da home: Lucas Figueiredo/CBF

Júlia Guimarães

Em tempos de Copa do Mundo, o futebol é o centro das atenções. O esporte, que é paixão nacional, está no foco dos debates, na mira da imprensa e ocupa lugar privilegiado entre os assuntos das reuniões familiares e de amigos. Ninguém tira o olho da telinha: tem gente que sai mais cedo do trabalho, os alunos são dispensados da escola e, em alguns órgãos públicos, é decretado ponto facultativo. O contexto é diferente do que acontece quando a Copa do Mundo é de futebol feminino, campeonato que não ganha o mesmo destaque na imprensa, nem na vida dos brasileiros. Mas, no Recife, algumas mulheres tentam mudar essa realidade.

A professora do Departamento de Comunicação da UFPE, Soraya Barreto, estudou a cobertura midiática das principais competições internacionais femininas e pode afirmar: a atenção dada à nossa seleção de mulheres não é, nem de longe, comparável ao destaque dos jogadores na imprensa. “Há uma desigualdade gritante. A gente encontrou em torno de mais de mil matérias falando sobre a Copa do Mundo masculina. Já em relação ao campeonato feminino, foram em torno de cento e poucos textos, é muita diferença. Elas (as jogadoras) não são notícia”, lamenta.

Há uma desigualdade gritante. A gente encontrou em torno de mais de mil matérias falando sobre a Copa do Mundo Masculina e sobre a feminina foram em torno de cento e poucos textos, é muita diferença.”

Essa desigualdade tem raízes históricas. A entrada das mulheres no mundo do futebol é marcada por estigmas e proibições. O Decreto-Lei nº 3.199, promulgado em 1941, proibia expressamente a prática de qualquer esporte de contato por parte das mulheres, o que incluía o futebol. Segundo a pesquisadora Soraya Barreto, a norma perdurou até a década de 1980, com justificativas que mascaravam as intenções machistas da restrição. “Essa proibição nasce com relação a teorias biologizantes, em que esses esportes poderiam prejudicar a anatomia feminina. Até porque, nessa época, a mulher era vista como procriadora e, por causa disso, várias falácias são criadas, pautadas na biologia. Então, esse afastamento acaba gerando na história uma invisibilidade e um afastamento das mulheres nos esportes, dentre eles o futebol”, explica.

 5,3 miFoi o prêmio concedido ao campeão da Copa Libertadores da América masculina, em 2015, enquanto na feminina o valor foi de US$ 20 mil.

Esse distanciamento se reflete nas diferenças salariais e de patrocínio quando comparamos os repasses feitos a times masculinos e femininos. Para se ter uma ideia, a premiação da Copa Libertadores da América masculina, em 2015, foi de US$ 5,3 milhões. Já no campeonato feminino, o prêmio pago às ganhadoras era de US$ 20 mil.

A presidente da Comissão da Mulher da Alepe, deputada Simone Santana (PSB), afirma que o combate à desigualdade de gênero é fundamental em todas as áreas, inclusive no futebol. “O esporte tem ainda um agravante: ele é inspirador. Os atletas tornam-se símbolos e é muito importante que as meninas tenham essa referência de pessoas bem-sucedidas, competitivas”, afirma. “Desde cedo os meninos são muito incentivados a praticar o futebol, e as meninas que mostram essa tendência, que têm esse talento, ao contrário, muitas vezes são desencorajadas ou estigmatizadas,” pontuou.

Mas esse afastamento tem sido combatido, aos poucos, por mulheres que tentam ganhar espaço dentro dos campos. Esse é o caso, por exemplo, da equipe Ousadas Futebol Clube Amador. O grupo é composto por 20 mulheres, que se reúnem todos os domingos no bairro do Ibura, na Zona Sul do Recife, para jogar futebol society.

“Não é porque muitas pessoas dizem que futebol é coisa de homem que devemos encará-lo como algo que a gente não pode fazer. A gente pode sim.”

Giselle Conceição da Silva, do Ousadas Futebol Clube Amador

Uma das organizadoras do time, Giselle Conceição da Silva, de 29 anos, explica que o nome do clube foi escolhido para encorajar a prática do esporte. “Foi para incentivar as mulheres a não baixar a cabeça, a não ser atingidas por certos tipos de preconceito, a se entregar a qualquer tipo de esporte, porque é sempre importante praticá-los. Não é porque muitas pessoas dizem que futebol é coisa de homem que devemos encará-lo como algo que a gente não pode fazer. A gente pode sim, a gente pode sempre mais, e a gente tem que ousar”, enfatizou.

Giselle ainda convidou as mulheres a participar dos times e a se envolver mais com o esporte. Uma forma de se aproximar do futebol feminino é torcendo pelas jogadoras brasileiras. A seleção é heptacampeã da Copa América, tendo vencido o último campeonato no Chile, em abril deste ano. Com isso, elas garantiram vaga nas Olímpiadas de 2020, no Japão, e na Copa do Mundo de 2019, na França.