Voz e poder aos pequenos cidadãos

Em 31/08/2017 - 19:08
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MIRIM BRASIL – Criada em 1990, entidade defende e promove os direitos humanos voltados para a infância, adolescência e juventude e, hoje, alcança 200 meninos e meninas de cinco bairros do Recife. Foto: Jarbas Araújo

André Zahar

“Precisa de mais escolas (as que têm são no outro bairro), uma biblioteca, um posto de saúde e uma emergência. Também um parque para as crianças brincarem, para a gente não ficar indo naquele campo que tem uma barreira com risco de deslizamento. E as mulheres estão precisando de mais segurança, porque estão sofrendo muito bullying e agressão sexual.”

“Tem que melhorar o calçamento e botar mais ônibus, só tem duas linhas. Colocar vigilantes nas ruas, porque está tendo muito assalto. Na minha escola, tem que fazer uma reforma completa. As cerâmicas estão caindo e minha sala só tem um ventilador. Eu já levei um baque, quase torei meu dedo. Queria levar o prefeito lá para ele trocar tudinho.”

FOTA 2 -

DESENVOLVIMENTO CIDADÃO – “A ideia era a de que deveríamos ter uma organização não só para as crianças, mas com a participação delas”, diz fundador do Mirim Brasil, Anacleto Julião. Foto: Jarbas Araújo.

As demandas são, respectivamente, de Emily Milena Barbosa de Arruda, de 12 anos, e Jonhy Victor Félix, 14, ambos moradores da comunidade Rosa Selvagem, no bairro da Várzea, Zona Oeste do Recife. Os dois participam do Movimento Infantojuvenil de Reivindicação (Mirim Brasil), entidade criada em 1990 para defender e promover os direitos humanos voltados para a infância, adolescência e juventude. Cerca de 80 pessoas trabalham nos projetos, que alcançam, aproximadamente, 200 meninos e meninas em cinco bairros do Recife.

A entidade foi criada pelo antropólogo Anacleto Julião (assista a vídeo) a partir da própria vivência como exilado político, ainda criança, durante a ditadura militar no Brasil. Filho do militante e ex-deputado estadual Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas, ele deixou o País aos 12 anos de idade e, a partir daí, observou diferentes experiências para esse segmento nos países por onde passou (Cuba, Chile e Suécia).

“Quando eu regressei, com a anistia política em 1979, vim com a ideia de que deveríamos ter uma organização não só para as crianças, mas com a  participação delas. No Mirim, tentamos motivar o desenvolvimento cidadão delas”, diz, reforçando o papel do Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, para a proteção e o incentivo à participação social e política desse segmento.

“A gente atua com educação e direitos. As crianças refletem sobre suas condições humanas, sobre a relação com a família, os vizinhos e o bairro e sobre a forma como acessam a cidade. Nessa tomada de consciência, aproveitamos os espaços políticos para ampliar a voz delas”, emenda a presidente do Mirim, Sylvia Siqueira Campos, de 35 anos, que ingressou na entidade aos 13.

Na prática, isso se traduz na participação em conselhos, fóruns, redes e campanhas. “O olhar da criança traz uma revolução para as políticas públicas, pois ela não vê diferença entre preto e branco, gordo e magro, protestante, católico, umbandista ou agnóstico. Ela enxerga as pessoas como iguais”, indica. “Se a gente pensa o mundo para a criança, é bom para todos”, emenda Sylvia.

Unicefdestaca, em relatório, que iniciativas políticas que promovem a participação dos mais jovens apresentam resultados melhores para toda a comunidade

A avaliação é endossada pelo relatório “Situação Mundial da Infância 2012 – Crianças em um Mundo Urbano”, do Unicef. Nele, a organização destaca que iniciativas políticas que promovem a participação dos mais jovens apresentam resultados melhores para toda a comunidade.

O documento também enfatiza que o mundo caminha para ter, em 2050, 70% das pessoas em áreas urbanas, o que pode agravar situações de exclusão, violência e poluição, prejudicando esse segmento da população em especial. “Os pontos de vista das crianças devem ser considerados em todas as questões que as afetam”, aponta o relatório. “No entanto, elas raramente são convidadas a participar de decisões que determinam o planejamento e o desenho de centros urbanos.”

Entre os caminhos para a participação política, o Unicef e outras entidades do setor reforçam a importância de estratégias e planos locais, agências coordenadoras próprias, orçamento adequado, acesso a bens culturais e acompanhamento constante das políticas públicas. Também advogam pelas escolas como agentes de transformação do território e defendem a intersetorialidade.

Para especialistas, permitir o acesso das crianças a lugares públicos abertos, como ruas e praças, reforça nelas ideias de bem comum, solidariedade e pensamento reflexivo. Na Itália, em 1991,  foi fundado o movimento “Cidade das Crianças”, que busca modificar o espaço urbano tomando-as como parâmetro. Seu criador, Francesco Tonucci, defende que as políticas públicas urbanas têm como tarefa garantir o direito ao brincar.

Pesquisador de experiências internacionais relacionadas ao assunto, Ciro Becker, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), avalia que, para transformar as cidades e os cotidianos das pessoas, é preciso discutir a vida das crianças. Ele pondera, porém, que falar em políticas públicas já é adotar um paradigma de adultos. “Seria importante observar o que elas fazem quando não são vigiadas, perceber outras dinâmicas e aproveitar o que for interessante”, recomenda.

“SONHAR OUTROS MUNDOS” – Concepções semelhantes emergem na comunidade do Coque, na Ilha de Joana Bezerra (Zona Sul do Recife), onde o Núcleo Educacional Irmãos Menores de Francisco de Assis (Neimfa) prioriza os “vínculos e afetos” com o próximo e a coletividade. Prestes a completar 31 anos, a entidade desenvolve projetos educativos não formais para quase 200 crianças e adolescentes. Num ambiente aberto a imagens sagradas e mitologias variadas, em vez de grade curricular, utiliza-se uma mandala. E, no lugar de processos fechados à experiência da infância, busca-se na forma criativa da criança dar significado ao ambiente como uma maneira de transformá-lo positivamente.

Para Sidney

PARTICIPAÇÃO – Para diretor-presidente do Neimfa, Sidney Rocha da Silva, fazer política não é falar bem: “É cuidar do modo como se vive, sonhar, fantasiar. Por isso, as crianças já fazem política”. Foto: Henrique Genecy

“Fazer política não é falar bem, certo ou direito. É cuidar do modo como se vive, sonhar mundos outros, fantasiar. É estar, viver e fazer junto. As crianças já fazem política, porque sabem criar mundos e cidades outras mais do que ninguém”, avalia o psicólogo e educador Sidney Carlos Rocha da Silva (assista a vídeo), de 28 anos, diretor-presidente do Neimfa, organização da qual participa desde os sete anos de idade. “Não falamos de política partidária, nem ensinamos a falarem bem. Apenas cuidamos para que zelem por aquilo que amam e valorizam. Daí eles aprendem, de forma natural,  que precisam fazer política e resistir ao que os oprime”, acrescenta.

Para Laryssa Rocha, de 16 anos, o Neimfa é um espaço onde é possível se sentir livre para pensar e falar. Ali ela criou, com outras amigas, o Revelar.si: Coletivo de Fotógrafas do Coque. “Aprendi no Neimfa a dar mais valor ao Coque, a comunidade onde eu moro, e a lutar por ela, se for preciso. E que qualquer um pode fazer política, porque política é mudança e todos podem agir”, diz. Para ela, os jovens têm muito a dizer, pois olham o mundo com uma perspectiva diferente dos adultos. “É só parar um pouquinho para escutar. Os jovens já estão tentando dizer algo”, conclui.

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*Fontes: Todos pela Educação/IBGE/Relatório Violência Letal Contra as Crianças e Adolescentes do Brasil (2016)